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A desconhecida de um edifício famoso em Belém, construído em cima de um cemitério. As misteriosas ossadas encontradas nos quintais de casas no bairro de Nazaré e Batista Campos. A história da uma peste que dizimou pelo menos 3 em cada 10 moradores de Belém. O único cemitério tombado pelo patrimônio histórico no Brasil que quase virou condomínio. Nossa Senhora de Soledad proteja esta cidade.

Até a primeira metade do século XIX, os enterros eram feitos em igrejas ( os de mais posses) ou em qualquer lugar ( o restante da população). Mas foi a peste que obrigou Belém a encontrar uma saída emergencial para a morte de pelo menos 30% de seus moradores. Em 1850, chegou ao Pará a febre amarela. Em 1855, o cólera. Entre 1851 e 1890, a varíola. Todas as doenças eram fatais.

O cemitério Nossa Senhora da Soledad foi construído por volta de 1850 no limite do Largo da Pólvora, e que se estendia de onde é atualmente o Ed. Manoel Pinto da Silva ( será que as histórias de assombrações no edifício derivam deste passado?), até a Conselheiro Furtado, nos limites do atual cemitério. Segundo arqueólogos, é possível encontrar ossadas em muitos dos quintais onde havia o cemitério original.

O presidente da Província, conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, descreveu assim a chegada da peste que chegou em doentes vindos em dois navios vindos de Recife. “Muitos actos de caridade e de devoção entre si praticaram durante a crise os habitantes desta capital. A muitos indivíduos, a longo tempo inimizados, a compaixão e a piedade fez apagar em seus peitos os sentimentos de ódio, esqueceram antigas ofensas, e se congraçaram no leito da dôr; e tudo faz honra a seus sentimentos de philantropia, humanidade e cavalheirismo”.

A morte de 506 vidas em 6 meses obrigou a uma decisão imediata pela ativação do cemitério. Jerônimo Coelho proibiu os enterros nas igrejas( inclusive a elite) e mandou cercar o “Cemitério Municipal” à rua São Vicente de Fora ( Serzedelo Corrêa) , entre as estradas da Constituição( gentil Bittencourt) e da Vala (Conselheiro Furtado), com fundos a travessa “Chafariz do Bispo”( Dr. Morais), usado apenas para enterrar escravos e palco de profanações constantes. Ali foi construída a capela de “Nossa Senhora da Soledade”, inaugurada em 8 de janeiro de 1850. Em 25 de março de 1850, o Regulamento da Soledade obrigava o enterro ali dos falecidos em Belém; sob pena de multa de quarenta mil réis e 30 dias de prisão.

Um cemitério apenas, mas com claras divisões sociais, (um retrato da segregação racial. escravos e sem posses eram enterrados no fundo onde não há os grandes mausoléus.). O terreno do cemitério ficou dividido em quartéis, destinados para os monumentos particulares, para catacumbas, para sepulturas de pessoas livres e para escravos. Ali estão muitos santos populares como menino Zezinho. Por muito pouco, não virou um condomínio de casas nos anos 60. O tombamento do Iphan, em razão de pressão de setores da sociedade ocorreu em 23 de janeiro de 1964, como medida emergencial contra o objetivo da prefeitura, apoiada pelo Arcebispo Metropolitano que queria transformar o lugar em uma vila de casas, o que segundo alguns urbanistas modernos da época preencheria um vazio encravado no meio da cidade.

O tombamento salvou o Soledad, esperando que nós, fizessemos o resto do trabalho de resgate deste monumento, similar em menor tamanho do Recoleta de Buenos Aires. Estamos falhando nesse papel.

Gostou? Comente, Curta, Compartilhe! Fontes Ernesto Cruz. Procissão dos Séculos: vultos e episódios da história do Pará. Belém: Imprensa Oficial, 1952, pp. 177-179./ Blog Carro Gitinho, Jornal Gazeta Official (1858) http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=874038http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/um_cemiterio_para_passear.html